São 15h58. Nem preciso olhar o relógio pra saber — o corpo já reconhece esse horário como quem reconhece um cheiro familiar. A chaleira já está no fogo, e o aroma do café moído começa a se espalhar pela casa, sem pressa. É um cheiro que não só invade os cômodos, mas também acorda lembranças que estavam quietas: vozes antigas, tardes sem compromisso, mãos que já não seguram mais a xícara, mas que ainda vivem em mim.
Enquanto a água esquenta, fico olhando a luz da tarde atravessar a cortina fina. Ela pinta a mesa com um tom dourado preguiçoso, como se soubesse que o dia está quase se despedindo, mas ainda quer ficar mais um pouco. É aquele momento em que o tempo parece suspenso — não é mais dia, ainda não é noite. É só um intervalo.
O café começa a borbulhar. O som é familiar, quase uma conversa sem palavras. Me vem à cabeça minha avó, que sempre dizia que o café das quatro era o “café da alma”. Não se tomava por costume, nem por cansaço — era por prazer. Ela fazia o dela com calma, como quem escreve uma carta à mão, prestando atenção em cada gesto.
Sento com a xícara quente entre as mãos. O calor atravessa a porcelana e chega até um canto de mim que o dia, com toda sua correria, tinha deixado meio esquecido. Lá fora, um cachorro late, um carro passa devagar, e a vida continua. Mas aqui dentro, o tempo parece dobrar, como se me desse licença pra respirar.
Cada gole me leva pra algum lugar: o café doce da infância, feito pela minha mãe; o amargo que aprendi a gostar quando cresci; as conversas interrompidas pelo som das colheres batendo na borda. E penso que talvez o café seja só uma desculpa pra parar. Pra olhar pela janela. Pra ouvir o que o silêncio tem a dizer.
Quando a xícara esvazia, não é só o café que termina. É também aquele instante suspenso. Mas ele fica comigo, de algum jeito. Porque o café das quatro não é só uma bebida — é um lembrete de que a felicidade, às vezes, cabe inteira dentro de uma xícara quente.
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